INDICAÇÃO CEE Nº 09/2000 APROVADA EM 11/10/2000 - PUBLICADA
NOVAMENTE EM 26/10/2000
encaminhar propostas capazes de
orientar o sistema de ensino do Estado de São Paulo no processo de implantação
de um novo modelo educacional para o ensino médio
1 - Introdução
A Constituição Brasileira
de 1988 estabelece como objetivos fundamentais do país a construção de uma
sociedade livre, justa e solidária, reduzindo as desigualdades sociais e
regionais, sem preconceitos e discriminação de qualquer ordem (Art. 3º). Nesta
direção, a LDB, de 1996, define como princípios fundamentais da educação
nacional a liberdade e a solidariedade humana (Art. 2º) e, como finalidade
da educação básica, o desenvolvimento do educando para o exercício da
cidadania, fornecendo-lhe os meios para progredir no trabalho e em estudos
posteriores.
Assim orientado, o Conselho Nacional de Educação (CNE), através da Câmara de
Ensino Básico (CEB) instituiu as Diretrizes Curriculares Nacionais para o
Ensino Médio, através de Parecer CNE/CEB Nº 15/1998 e
Resolução CNE/CEB Nº 03/1998, com o objetivo de
orientar os procedimentos a serem utilizados na organização pedagógica e
curricular de cada unidade escolar integrante dos diversos sistemas de ensino.
Em nível estadual, cabe aos órgãos normativos e executivos de seu sistema
assegurar a cada unidade escolar, tanto um progressivo grau de autonomia
pedagógica, administrativa e financeira (LDB, Art.15),
quanto estabelecer normas complementares e políticas educacionais, considerando
as peculiaridades regionais e locais, observado o disposto nas Diretrizes
Curriculares Nacionais para o Ensino Médio (Resolução CEB/CNE
Nº 03, Art.14).
O Parecer do CNE que acompanha a Resolução Nº 03, propõe orientações de
organização pedagógica e curricular para o ensino médio, a
partir do que expressa a LDB em termos dos valores de interesse social, dos
direitos e deveres dos cidadãos, do respeito ao bem comum e à ordem
democrática, da tolerância, da solidariedade e do fortalecimento dos laços
familiares, bem como de princípios de ética, política e estética.
O Conselho Estadual de Educação de São Paulo - CEE/SP,
no exercício de suas atribuições, iniciou seus trabalhos de definição das
Diretrizes Curriculares para o sistema de ensino do Estado de São Paulo, Ensino
Fundamental e Médio, promovendo em 21-06-1999 Seminário Consultivo sobre a
questão. Colaboraram com reflexões e sugestões Universidades, Institutos de
Pesquisa, Centros de Educação, Associações de Professores e Sindicatos de
Profissionais da Educação. O CEE definiu uma comissão interna para redigir a
norma legal relativa ao ensino médio e em junho de 2000 a primeira formulação foi discutida, recebendo, na seqüência, sugestões de vários
Conselheiros. Todas essas colaborações foram consideradas para a
formulação do presente documento.
O objetivo primordial desta Indicação é encaminhar propostas capazes de
orientar o Sistema de Ensino do Estado de São Paulo no processo de implantação
de um novo modelo educacional para o Ensino Médio, tendo por base os princípios
da Constituição, da LDB e do Parecer CNE/CEB Nº.
15/1998 e da Resolução CNE/CEB Nº 03/1998 que dispõem
sobre as Diretrizes Curriculares Nacionais para o Ensino Médio.
2 - Princípios
O Parecer do CNE sobre
esta questão articula valores e princípios, aprofunda as idéias básicas já
enunciadas no texto constitucional e na LDB, na busca de uma proposição
qualificada para a organização curricular das escolas de ensino médio, de modo
a estarem à altura das demandas da contemporaneidade, das peculiaridades
regionais e dos alunos.
Além da importância no tratamento das rápidas e profundas mudanças que ocorrem
no cenário cultural geral contemporâneo e de suas repercussões nos espaços
regionais, os educadores devem estar atentos à mudança fundamental que acontece
quanto ao alunado. No Estado de São Paulo, o expressivo aumento das
matrículas no ensino médio, nos últimos anos, ampliou a participação nesse grau
de ensino de amplas parcelas da população. Com esses alunos, a escola de ensino
médio passou a contar - felizmente, pois esse é um dado histórico da maior
importância - com toda a gama de diferenciação encontrada na sociedade em geral.
A reflexão a respeito das diretrizes para a escola de ensino médio hoje, necessita considerar esse fato fundamental da mudança do
perfil de sua clientela.
Tendo como referência esse cenário de maior pluralidade da clientela,
enfatiza-se a importância de que os profissionais de uma escola, ao discutirem
o seu projeto pedagógico e o currículo, considerem alguns princípios básicos, privilegiando:
a) o exercício da sensibilidade, de modo a escolher procedimentos e ações não
padronizadas, mas, sim, criativas e múltiplas, que traduzam reconhecimento
pelas diferenças de toda ordem entre os alunos e a comunidade a que pertencem,
o que representa ponto básico para a criação de uma comunidade multicultural, onde se trabalhe para a superação das
situações de desigualdade. Exercitar a sensibilidade é, em primeiro lugar,
acolher os alunos no estágio de conhecimento que eles chegam na escola, com as
suas diferenças que vão desde as étnicas, etárias, de origem, de crenças, de
gênero, de composições familiares, de história educacional, de trabalho e
outras condições de vida. A sensibilidade deve estar presente
também nas relações entre os agentes escolares, respeitando a diversidade de
formação de cada um e privilegiando sua inventividade
b) a liberdade, a autonomia, a flexibilidade de pensamento e também a
coragem para a incerteza da experimentação das mais diferentes estruturas
escolares, de currículo, assim como de estratégias de ensino para que os
alunos, diferentes no seu ponto de chegada, ao entrarem na escola, usufruam de
meios os mais diferenciados para igualar-se aos demais no ponto de saída,
explorando-se para isso todos os bens sociais da escola e da localidade. As
ações pedagógicas, a vida escolar como um todo, devem garantir igualdade de
oportunidades a alunos para aprender e a professores para aperfeiçoar-se
continuamente no ensinar; é necessário compromisso com o uso do tempo, do
espaço, dos equipamentos e recursos didáticos no interesse da maioria dos
alunos.
c) Práticas de reconhecimento, respeito e acolhimento da identidade do outro,
da própria identidade e da possibilidade do aprimoramento constante dessas
identidades, tendo em vista o bem comum e o próprio desenvolvimento. da mesma forma que para os alunos, ressalta-se a importância
de os professores serem acolhidos na sua diversidade e participarem juntos de
um projeto de capacitação continuada na busca de uma escola de qualidade
superior e do conseqüente desenvolvimento contínuo de sua própria pessoa. Nesse
sentido, a finalidade mais relevante é a criação de condições para o
desenvolvimento da autonomia da escola - condição indispensável para que todas
as pessoas, alunos, professores, diretores - tenham capacidade de realmente
fazer escolhas, elaborar conscientemente juízos de valor, fazer projetos de
vida e, principalmente, possam avaliar-se, conhecer o seu potencial e compor
sua auto-estima, de modo socialmente construtivo.
3 - Os princípios e as
escolas
Para que se implementem
esses princípios, as escolas deverão prever em suas propostas pedagógicas
dispositivos que favoreçam:
a) a apropriação de novos conceitos e informações;
b) o desenvolvimento do exercício livre e consciente da cidadania;
c) a criação de oportunidades práticas de liderança construtiva e democrática;
d) a consciência de bem comum que estimula a busca de soluções e alternativas
para a preservação da natureza, saúde, dignidade humana, bens e serviços
públicos;
e) o vínculo da teoria e da prática, buscando a compreensão da realidade;
f) a construção da autonomia pessoal e intelectual;
g) a solidariedade entre todos os envolvidos: profissionais da educação,
funcionários, alunos, seus pais e a comunidade circundante.
4 - Bases da organização
curricular
As escolas de ensino
médio deverão oferecer uma formação básica que alie informações e conteúdos
disciplinares entre si, com valores e atitudes, favorecendo o desenvolvimento
de habilidades e o alcance de competências importantes para a vida pessoal e
social e para o trabalho. Devem permitir:
a) aprender a organizar o
pensamento;
b) aprender a obter informações, organizá-las, validá-las e interpretá-las;
c) relacionar o conhecimento com a vida cotidiana, articulando, sempre que
possível, teoria e prática (contexto);
d) argumentar;
e) atribuir novos significados às informações em geral e ao que é ensinado e,
através disso, ampliar a própria visão de mundo;
f) lidar com os sentimentos que a aprendizagem desperta;
g) desenvolver e avaliar valores, distinguindo-os na comparação com outros
diferentes, criando um referencial ético, socialmente construtivo.
Nessa perspectiva, as formas de organização curricular devem diversificar
matérias e temas para que se ofereçam aos estudantes oportunidades de
desenvolverem habilidades e competências em circunstâncias reais, segundo a
demanda do meio. Para dar conta desses desafios, é necessário que,
gradativamente, se procure:
a) buscar os conteúdos curriculares (sejam fatos, conceitos ou princípios) que
possam também representar meios para o desenvolvimento de competências,
habilidades, atitudes e valores;
b) desbastar o currículo saturado de informações enciclopédicas, priorizando
conhecimentos e habilidades, cujo domínio favorece novas e mais complexas aprendizagens.
c) entender e trabalhar as linguagens como formas portadoras de significados,
conhecimentos e valores;
d) criar estratégias de ensino que mobilizem o raciocínio, bem como a
construção interativa (aluno-aluno, aluno-acervos de
informações e aluno-professor) e coletiva do conhecimento, paralelamente ao
fortalecimento da capacidade argumentativa e do pensamento crítico;
e) estimular procedimentos e atividades que levem o aluno a reconstruir o
conhecimento, através de experimentação, execução de projetos e atuação em
situações sociais;
f) organizar conteúdos em áreas e projetos interdisciplinares que melhor
abriguem a visão articulada do conhecimento e o diálogo permanente entre as
diferentes áreas do saber;
g) tratar os conteúdos de modo contextualizado, aproveitando sempre que
possível as relações entre conteúdos e contexto para dar novos significados ao
aprendido, estimulando a iniciativa e a autonomia intelectual do aluno.
Esta concepção de
currículo envolve os conceitos de interdisciplinaridade e contextualização.
Todo conhecimento mantém um diálogo permanente com outros conhecimentos.
Algumas disciplinas identificam-se, outras diferenciam-se,
tanto relativamente ao tipo de conhecimento e aos métodos, quanto ao objeto de
conhecimento, ou mesmo às habilidades mobilizadas. Nesse sentido, a
interdisciplinaridade corresponde à possibilidade de relacionar disciplinas
próximas em atividades ou projetos de estudo, pesquisa e ação, bem como à
integração entre linguagens e procedimentos diversos que permitam o tratamento
de temas ou projetos complexos. Desse modo, é possível a proposta de trabalhos
interdisciplinares, não só entre áreas de maior evidência de afinidade - artes
e história, química e biologia -, como também entre áreas aparentemente
distantes - artes e física, biologia e filosofia. O importante é haver um tema
gerador, um experimento, um plano de trabalho ou de ação para intervir na
realidade, um texto em multimídia etc.
A perspectiva de que o ensino médio deve desenvolver competências, construindo
habilidades, tem sido um aspecto controverso da pedagogia contemporânea e, por
vezes, mal interpretado. Estes aspectos não excluem ou minimizam o aprendizado
de conteúdos. Pelo contrário, não é possível atingir qualquer competência sem o
suporte de conhecimentos, sem a instrumentalização de
informações. Conteúdos são a substância da competência e
ambos devem possibilitar aos alunos articular o saber escolar à vida, ao
trabalho, às relações sociais, à especulação sobre outros conhecimentos e
formas de agir. A expectativa presente para o ensino médio é de que ele
assegure o processo de aprendizagem - abrangendo as funções do conhecer, fazer,
conviver e ser - em lugar da tradicional ênfase no processo de ensino centrado
prioritariamente no professor e em informações fragmentadas.
Aos diretores, professores e toda a comunidade escolar este é o desafio que se
coloca em cada escola, em sua escola.
Nesse sentido, se torna fundamental que o trabalho escolar e a vivência da
escola possibilitem ao aluno desenvolver-se nos
aspectos colocados, o que pode ocorrer com maior coerência e possibilidades de
criar-se na escola um projeto pedagógico çõeso e
orgânico. Toda e qualquer disciplina, se articulada pelo projeto pedagógico,
contribui nesse esforço.
Isto demandará mudanças nas formas de gestão das escolas, de entrosamento entre
os professores, de interlocução com os supervisores e dos compromissos com os
alunos e a comunidade.
5 - A Base Nacional
Comum e a Parte Diversificada do Currículo
O Artº
26 da LDB afirma que "os currículos do ensino fundamental e médio devem
ter uma base nacional comum a ser complementada, em cada sistema de ensino e
estabelecimento escolar, por uma parte diversificada, exigida pelas
características regionais e locais da sociedade, da cultura, da economia e da
clientela". Tendo em vista a importância tanto da base nacional comum -
possibilitando o domínio de conhecimentos, habilidades e competências básicas,
facilitando a mobilidade nacional dos cidadãos - quanto da parte diversificada
- garantindo a permanência das referências culturais locais, a presente
Indicação observa que:
a) as diretrizes que têm
pautado o presente documento são aplicáveis à base nacional comum e à parte diversificada;
b) não deverá haver dualidade na organização curricular, relativamente à base
nacional comum e à parte diversificada, já que esta última é uma dimensão do
currículo, em sua perspectiva de organicidade,
integração e contextualização do conhecimento;
c) a parte diversificada reafirma a autonomia da escola e as especificidades
regionais, mas deve ter coerência com a base nacional comum;
d) tanto a parte comum como a diversificada poderão ser desenvolvidas por meio
de projetos integrados ao currículo, selecionados pela equipe escolar, em
consonância com a heterogeneidade dos alunos, a identidade da escola e as
necessidades do meio social e econômico;
e) ao oferecer projetos ou atividades da parte diversificada, a escola
possibilitará aos alunos a escolha dentre os estudos oferecidos, de modo a
incentivá-los a participar, construindo o próprio currículo ;
f) os conteúdos curriculares serão agrupados por áreas:
i) área de Linguagens e Códigos e correlatas Tecnologias, abrigando, entre
outras, a língua portuguesa e suas formas de expressão, a(s) língua(s)
estrangeira(s) moderna(s), as artes, a educação física (como forma de expressão
do corpo) e as tecnologias de comunicação e informação;
ii) área das Ciências da Natureza, Matemática e
correlatas Tecnologias, abrigando, entre outros, os conteúdos de biologia,
física, química e matemática, bem como suas ferramentas tecnológicas;
iii) área das Ciências Humanas e correlatas
Tecnologias, abrigando, entre outros, conteúdos de geografia, história,
psicologia, sociologia e filosofia, incluindo as reflexões sobre os impactos
das novas tecnologias.
Essa forma de organização curricular implica:
a) na inter-relação dos saberes acumulados pela humanidade ao longo do tempo;
b) na conexão entre os conhecimentos na história e através dela;
c) na construção dos conhecimentos em diferentes estruturas, não
necessariamente em forma piramidal, supondo excessivos pré-requisitos (tendo em
vista que é de maneira variada e múltipla que os conhecimentos se apresentam no
mundo contemporâneo, na vida, nas tecnologias, nas ciências e nas linguagens);
d) oferecer diversidade de informações, de significados, de formas de expressão
e comunicação, respondendo às diferentes sensibilidades, potencialidades e
interesses dos alunos;
e) promover o estudo e a reflexão sobre a produção dos conhecimentos, os fatores
socioeconômicos, éticos e políticos envolvidos nesse processo, os efeitos
sociais e os impactos ambientais causados;
f) levar os alunos a atuarem de forma responsável e crítica na utilização
desses conhecimentos.
A escola poderá oferecer
as três áreas curriculares ao longo do ensino médio, conforme estabelecido em
seu projeto pedagógico, garantindo que todos os alunos concluam o curso sem
prejuízo em qualquer área. Ainda, se deve considerar que o Artº
24 da Lei nº 9394/96 deixa de privilegiar a organização curricular em séries e
enfatiza outras formas de encadeamento do currículo, abrindo novas
possibilidades à criatividade dos educadores. No atual estágio do ensino médio
do Estado de São Paulo e, especialmente, na rede pública, o regime de
matrículas por disciplina, se bem estruturado, pode induzir a ações aqui
preconizadas, bem como criar oportunidades de continuidade e inclusão escolar,
em casos de retenção.
6 - a Proposta
Pedagógica e os Conteúdos Curriculares
Toda intenção educativa
preconizada nas Diretrizes Curriculares Nacionais (DCNs) e nesta presente Indicação deve ser
materializada numa Proposta Pedagógica que confira identidade e direcione as
energias, os recursos e a prática educativa da escola.
A Proposta Pedagógica de uma escola, ao ser delineada, parte dos objetivos mais
amplos, relacionados à formação geral do alunado, tendo em vista as
características da contemporaneidade bem como da comunidade local, prevendo as
ações do coletivo escolar para sua consecução. na
seqüência, o projeto deve situar o trabalho nas diferentes áreas que componham
o currículo do ensino médio, sem prejuízo das disciplinas que componham o
quadro curricular e, em seguida, o trabalho específico de cada professor,
identificando todas as suas inter-relações com os objetivos do ensino médio,
com as diretrizes curriculares, suas áreas componentes e disciplinas em que se
desdobram. Este é o trabalho de definição do currículo, concretização de um
verdadeiro itinerário formativo para os alunos e de um itinerário didático para
os professores. Nessa concepção, currículo refere-se à organização e à
articulação interna de um percurso de estudos para uma determinada clientela
escolar no seu conjunto, em uma dada comunidade.
Os pontos de referência que dão ancoragem à Proposta
Pedagógica, no espírito desta Indicação, são:
a) a
importância dos conteúdos, embora para alguns possa parecer o contrário:
competências e habilidades sem conteúdo caracterizam um esvaziamento da escola,
e conteúdos que não se traduzam em competências e habilidades são efêmeros;
trata-se de valorizar os conteúdos, atualizando-os, revitalizando seus
significados, seja através da reconsideração dos conceitos de ensinar e de
aprender, seja do questionamento do papel da escola na aprendizagem, no
desenvolvimento e na socialização do homem;
b) a criação de uma nova visão quanto ao trabalho escolar no ensino médio; este
é o marco mais significativo nas DCNS, juntamente com a autonomia que coloca
nas mãos das unidades a responsabilidade da elaboração da sua Proposta Pedagógica
e formulação dos respectivos currículos (conforme preconiza a LDB, afirma o
Parecer CNE/CEB nº 15/98 e confirma esta Indicação),
e, sobretudo, a execução dessa Proposta no dia-a-dia de cada escola;
c) a proposta de autonomia e proposição curricular rompe com o caráter
monolítico da transmissão de conteúdos padronizados e defende o saber e a
cultura como ferramentas essenciais para a cidadania plena, que se perfaz na
autonomia intelectual e na vivência social solidária;
d) a escolha dos conteúdos que caracterizam cada área e componentes
curriculares ficará a critério de cada Proposta Pedagógica, mas deverá ter como
referência o desenvolvimento dos aspectos sócio-cognitivos, éticos e de
sensibilidade humano-social e estética aqui apontados, nos termos das DCNs;
e) os conteúdos escolhidos, voltados para a preparação básica para o trabalho,
não devem ter caráter específico de formação profissional, pois esta é função
da educação profissional de nível técnico ou da educação superior;
f) na medida em que cada escola faz parte do sistema de ensino e está inserida
numa comunidade, é possível pensar em grupos de unidades que se complementem
quanto aos currículos, especializando cada uma numa área, atendendo à
diversidade de propostas e à diversidade de demandas.
7 - A
Implementação das Diretrizes no âmbito do Estado de São Paulo
O Sistema e
seus estabelecimentos de ensino, através de suas propostas pedagógicas, em
regime de cooperação, deverão criar condições para que a diversificação de
estratégias educacionais ocorra, visando possibilitar a adoção, a execução, a
avaliação e o aperfeiçoamento do trabalho pedagógico, incluindo-se:
a) a análise
e a discussão da realidade em que a escola está inserida;
b) a realização de experiências que viabilizem a coesão da escola com a
realidade do aluno;
c) a promoção de estratégias e procedimentos adequados para o tratamento das
necessidades educativas específicas;
d) a criação de oportunidades de avaliação e intervenção pedagógica (registros
de observação, instrumentos de acompanhamento e avaliação, material pedagógico,
envolvimento das forças da comunidade etc);
e) a formação contínua da equipe educativa visando à melhoria constante da
qualidade de ensino.
As mudanças
suscitadas pela LDB e sua regulamentação orientam-nos para um caminho de
significativa transição. Remetem-nos, também, à reflexão de que toda mudança é atitudinal, primeiramente, e só ocorrerá após a
compreensão, a avaliação significativa da necessidade
de mudar e a disposição sincera de fazê-lo.
Este esforço, solicitado pela comunidade atual e exigido pelas novas gerações,
já existe e já frutificou no cotidiano de muitas escolas pioneiras das
mudanças, hoje propostas para todas. Todavia, acreditamos que a multiplicação desse
esforço somente se dará se alimentado por atitudes de valorização de novos
projetos, comunicação e troca de experiências e avaliação dos processos de
forma contínua. É justamente neste ponto que reside a
preocupação deste órgão normativo.
Nesta Indicação, enfatiza-se o papel da escola como unidade central de
definição da Proposta Pedagógica. No entanto, redes de ensino de maior
dimensão, como a mantida pela Secretaria de Estado da Educação, podem ter
necessidade de algumas decisões gerais, da competência de órgãos centrais,
cuidando-se, no entanto, que não venham a levantar impedimentos à elaboração de
Propostas Pedagógicas pelas escolas que traduzam suas necessidades e sua
capacidade de articular o novo. Pode ser necessário que se ofereçam balizas, a partir
das quais seja possível que toda unidade escolar elabore, de forma coletiva,
uma proposta pedagógica que, analisando e aproveitando os acertos de sua
história, responda aos cenários que se descortinam, em consonância com as
determinações e princípios norteadores da presente Indicação.
Por fim, é preciso esclarecer que a mudança de rumos que ora se propõe não
sairá dos limites das intenções, se não houver um processo permanente de
capacitação do pessoal docente e discussão do significado das Diretrizes.
Diferentes professores estão em diferentes momentos de reflexão dessas
questões; alguns, convictos, já experimentam e se debatem com as dificuldades
cotidianas da mudança. É fundamental que cada escola aproveite a força
potencial dessas experiências. Espera-se que as redes públicas e privadas
invistam em projetos de capacitação que fortaleçam essa direção.
Efetivamente, a implementação de um novo ensino médio só será realidade se o
professor, principal agente do processo, estiver motivado e capacitado para
enfrentar com confiança e criatividade, com apoio do diretor, dos supervisores
e dos demais especialistas - a insegurança de experimentar o novo, o diferente,
o que transforma, na direção do que se acredita socialmente justo.
2.DECISÃO DAS CÂMARAS
As Câmaras de
Ensino Fundamental e Médio adotam como sua Indicação, o Voto dos Relatores.